
O pedido chegou ao escritório de patentes dos Estados Unidos em 8 de outubro de 1945, com um título seco: "método de tratar alimentos". O autor era Percy Spencer, engenheiro da Raytheon, empresa que fabricava componentes de radar para as Forças Armadas americanas. Oitenta e um anos depois, a história do micro-ondas mostra como uma observação de laboratório virou um dos eletrodomésticos mais presentes nas cozinhas.
Spencer nasceu em 1894, no estado do Maine, perdeu o pai cedo e deixou a escola ainda criança para trabalhar. Aprendeu eletricidade na prática e, depois, na Marinha, onde estudou radiotelegrafia. Na Raytheon, tornou-se especialista em magnetrons, as válvulas que geram micro-ondas nos radares.
O episódio mais conhecido da história aconteceu durante um teste com magnetron ativo: Spencer percebeu que uma barra de chocolate em seu bolso havia derretido. Intrigado, repetiu o efeito de propósito com grãos de milho de pipoca, que estouraram. Relatos da época incluem também um ovo que cozinhou tão rápido que explodiu.
A explicação física está nas moléculas de água dos alimentos. Expostas a um campo eletromagnético que oscila bilhões de vezes por segundo, elas tentam se alinhar a cada inversão e, nesse movimento, geram calor dentro do próprio alimento.
O pedido de 1945 foi concedido em 24 de janeiro de 1950, sob o número 2.495.429, com os direitos cedidos à Raytheon, como previa o contrato de trabalho de Spencer. Antes disso, a empresa já havia lançado, em 1947, o primeiro forno comercial, batizado de Radarange.
Aquele equipamento pouco lembrava o de hoje:
O salto para a cozinha doméstica veio com a miniaturização dos componentes e a queda de preço. No fim da década de 1960 surgiram os primeiros modelos de bancada para residências, e nas décadas seguintes o aparelho se espalhou pelas casas de vários países, incluindo o Brasil.
O forno de micro-ondas não substituiu o fogão, mas criou novos hábitos. Descongelar alimentos deixou de exigir planejamento na véspera. Reaquecer sobras virou tarefa de minutos. A indústria de alimentos passou a desenvolver embalagens e pratos prontos pensados para esse tipo de aquecimento.
No projeto de cozinhas, o aparelho ganhou lugar próprio. Hoje é comum reservar um nicho na torre quente, ao lado do forno elétrico, ou prever modelos de embutir sobre o cooktop. Na hora de planejar, alguns cuidados ajudam:
Também vale lembrar os limites do aparelho. Recipientes metálicos podem provocar faíscas, e nem todo plástico suporta o aquecimento. O manual e a indicação na embalagem do recipiente são as referências mais seguras.
Os aparelhos atuais incorporaram recursos que Spencer não imaginaria: sensores que estimam o ponto do alimento pela umidade liberada, inversores que modulam a potência de forma contínua e combinações com grill e convecção. O princípio, porém, é o mesmo observado em um laboratório de radar em Massachusetts.
Spencer morreu em 1970, com dezenas de patentes registradas em seu nome. A do micro-ondas é, de longe, a que mais mudou o cotidiano das pessoas.
Kitchen Bath Expo, 2026.