
Cem anos atrás, uma arquiteta austríaca de 29 anos resolveu tratar a cozinha como um posto de trabalho. Margarete Schütte-Lihotzky desenhou em 1926 a chamada cozinha de Frankfurt, um ambiente compacto, com bancadas, armários e utensílios dispostos na ordem das tarefas, para os conjuntos de habitação social que a prefeitura da cidade alemã erguia sob o comando do arquiteto Ernst May. O bairro da Römerstadt foi um dos que receberam o modelo, instalado em cerca de 10 mil moradias no fim da década de 1920.
A Alemanha da década de 1920 vivia falta aguda de moradias, e o programa conhecido como Nova Frankfurt precisava construir muito, rápido e barato. Os apartamentos eram pequenos, e a cozinha não poderia ser o cômodo amplo e multifuncional das casas antigas. A solução de Schütte-Lihotzky foi um espaço estreito, de aproximadamente 1,9 metro por 3,4 metros, separado da sala por uma porta de correr.
O tamanho reduzido não era um defeito a ser disfarçado, e sim a premissa do projeto. Em vez de dar voltas pelo cômodo, quem cozinhava encontrava tudo ao alcance das mãos, em poucos passos.
A arquiteta se inspirou nos métodos de racionalização do trabalho que as fábricas vinham adotando, com observação das tarefas, cronometragem e eliminação de deslocamentos inúteis. Também olhou para cozinhas de vagões-restaurante, que resolviam o preparo de muitas refeições em um corredor mínimo.
O resultado reunia soluções que hoje parecem óbvias:
Até a escolha das madeiras seguia a função. Relatos sobre o projeto citam o carvalho nos recipientes de farinha, por afastar insetos, e a faia no tampo, por resistir a manchas, ácidos e marcas de faca.
O passo decisivo foi a padronização. Os móveis eram produzidos em série e montados em milhares de apartamentos iguais, algo raro em uma época em que armários de cozinha eram peças avulsas. Essa lógica de módulos fabricados em escala, com medidas previsíveis e encaixe na obra, está na base da cozinha planejada vendida hoje em lojas e marcenarias.
O modelo também recebeu críticas. Por ser pequeno, dificultava que duas pessoas cozinhassem juntas e isolava quem estava ali do restante da casa. As cozinhas integradas das últimas décadas são, em parte, uma resposta a esse isolamento, mas mantêm o princípio de organizar o espaço pela sequência das tarefas.
A cozinha de Frankfurt completa um século com lições que valem para qualquer projeto de reforma:
Uma unidade original está no acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York, e outras foram reconstruídas em museus europeus. O interesse não é só de arquitetos: a ideia de que uma cozinha pequena pode funcionar melhor do que uma grande mal resolvida continua atual em apartamentos compactos.
Kitchen Bath Expo, 2026.